Cabelo branco: elas contam por que assumiram os grisalhos

Publicado em 30 de outubro de 2020
Cabelo branco: elas contam por que assumiram os grisalhos

Cris Guerra e Camila Faus assumiram o cabelo branco antes da tendência que cresceu com a pandemia e contam como foi o processo e por que estão realizadas nesta fase grisalha

A cantora Fafá de Belém, a atriz Glória Pires e a apresentadora Astrid Fontenelle estão aparecendo por aí com os cabelos brancos à mostra. Elas já disseram que a pandemia as fez optar por não pintar os fios durante o isolamento.

E isso aconteceu com muitas mulheres, não só com as celebridades. Na verdade, assumir os cabelos brancos é uma tendência do mundo da beleza, que há alguns anos vem apontando para uma valorização daquilo que é natural. Isso aconteceu com os cabelos cacheados e, agora, está acontecendo com os grisalhos.

A pandemia acelerou este processo por causa do isolamento e da falta de acesso ao salão de beleza. Ao ficar meses sem sair de casa, muitas mulheres tomaram contato com seus fios brancos por mais do que alguns dias e resolveram experimentar um novo visual.

Por que assumir?

Esse movimento é importante porque ajuda a tirar das costas das mulheres o peso de que cabelo branco é desleixo e sinal de velhice. Não são raros os casos de cabelos brancos que surgem na juventude, aos 20 anos. E mesmo que ele surja na maturidade, qual o problema? Envelhecer é um processo natural da vida e deve ser encarado desta forma, com naturalidade.

“Deixar os cabelos brancos só por moda é difícil porque é uma decisão que te faz lidar com suas questões sobre o que é ser belo e o que é envelhecer. Eu vejo muito mais como um ato político, um ato de ‘eu vou fazer aquilo que eu acho que funciona pra mim e tudo bem’”, diz Camila Faus, 47, que há três anos assumiu os brancos.

A escritora Cris Guerra, 50, assumiu há um ano e acha que é uma experiência de se ver de uma forma diferente, descobrir uma nova beleza, uma leveza e uma liberdade muito grande.

“O cabelo tem um significado muito pesado pra mulher. Colocamos o peso da sensualidade no cabelo quando, na verdade, ela não está no cabelo”, diz.

As duas compartilharam com a gente as suas histórias de transição para o cabelo branco.

Do medo à fascinação pelo cabelo branco

Em plena pandemia, a escritora, palestrante e podcaster Cris Guerra fez 50 anos. Foi também na pandemia que ela celebrou um ano com os cabelos totalmente grisalhos.

“O cabelo branco veio coroar um momento de muito autoconhecimento e segurança dentro de mim. Nunca estive tão bem comigo”.

Mas isso não quer dizer que o processo de assumir os cabelos brancos foi simples, e muito menos que é definitivo.

“Em setembro fez exatamente um ano que fiquei totalmente grisalha. Foi um processo não planejado. Me deu vontade e resolvi experimentar. Mas não sei quanto tempo vou ficar. Pode ser que eu fique a vida toda, pode ser que eu volte a pintar”.

Um fator facilitador pra Cris foi que ela já usava os cabelos curtos há muito tempo. E é unanimidade entre as mulheres e entre os profissionais: com o cabelo curto é mais fácil.

“Eu uso o cabelo curto há 31 anos. Cortei aos 19 e foi um marco importante para a construção da minha identidade. E 30 anos depois eu praticamente raspei a cabeça. Foi quase uma renovação desses votos”.

Cris conta que começou a ficar cansada do processo de pintar o cabelo de preto cada vez que um fio branco apontava. “Todas as vezes em que tomava contato com o cabelo crescendo e via aquele prateado, eu achava bonito. Era um misto de medo e fascinação”.

Cara a cara com a passagem do tempo

Quando, em 2019, Cris começou a falar mais sobre envelhecimento, o assunto ‘cabelo grisalho’ começou a surgir mais vezes.

“Acho que fui assumindo e entendendo que eu precisava ter contato com esse envelhecimento, como se fosse uma forma de, em vez de mascarar, enfrentar de uma maneira positiva e construtiva”.

Com o apoio do namorado e da cabeleireira, ela seguiu no propósito, e no dia 6 de setembro de 2019 praticamente raspou a cabeça. “Foi tão evidente que aquilo me fez feliz que não teve como as pessoas falarem que não estava bom”, diz ela, lembrando que não ouviu quase nenhuma crítica sobre a decisão, algo difícil de acontecer.

Aos poucos, Cris aprendeu a cuidar desse cabelo e entendeu que, ao contrário do que se diz, cabelo branco não é sinônimo de desleixo. “No começo, tinha dúvidas se ia prosperar porque eu não sabia como lidar com esse novo cabelo. Como ele ia ficar? Preciso proteger do sol? Tenho que usar um shampoo desamarelador? São muitos cuidados novos que a gente passa a ter”, diz. “Mas, comparado com a tinta preta que eu usava uma vez por mês, é maravilhoso porque é um cuidado muito mais gostoso. É autocuidado”.

Meus cabelos brancos, minhas regras

Faz 3 anos que Camila Faus, 47, co-fundadora da plataforma SHEt, assumiu os cabelos brancos. Ela, que sempre coloriu usando henna ou tonalizante, que são colorações mais naturais e menos agressivas, começou a pensar no por que pintava o cabelo ao acompanhar a transição de uma pessoa que ela admira.

“ Nunca tinha parado para pensar por que eu pintava o meu cabelo. Eu simplesmente fazia algo que via a minha volta. E quis experimentar fazer diferente”.

Na época, Camila usava o cabelo comprido e chegou a ficar com cinco dedos de raiz branca. “Decidi puxar uma mechas invertidas pra tentar deixar o cabelo da mesma cor. E foi a coisa mais equivocada que fiz na vida. Eu nunca tinha passado tintura no cabelo, fiquei horas pra descolorir e depois de 3 dias meu cabelo ficava amarelo. Decidi cortar muito curtinho e começar do zero a transição”.

Ela já havia usado o cabelo curto no passado, então não estranhou o comprimento. A novidade foi ver os cabelos crescerem brancos.

“No começo, quando estava com o cabelo comprido e aquela raiz gigante, eu olhava no espelho e achava que o cabelo estava me envelhecendo. Até que um dia eu pensei: ‘mas eu estou envelhecendo, qual é o problema?’ Aí comecei a entender todo esse tabu do envelhecer, essa narrativa da beleza associada a juventude, que principalmente nós, mulheres, temos que lutar contra”.

Ao aceitar e acompanhar o crescimento dos cabelos brancos ela se sentiu mais livre com relação à própria beleza e passou a refletir sobre o belo e também sobre o envelhecimento.

Fazer aquilo que se quer

“Passei a ver beleza em mim onde eu não via. E isso é muito libertador, porque você começa a perceber que implica com uma linha minúscula ao lado do olho e acha que você se resume àquilo. Eu sou muito mais coisas do que só um cabelo ou uma linha. Deixar os cabelos brancos foi libertador nesse sentido”.

Isso a ajudou a lidar com as críticas que vieram no começo do processo em forma de comentários como: “mas você é tão bonita, porque vai fazer isso?”, ou “Ah, mas você pode! Em você fica bom”.

“Acho que isso diz muito sobre a narrativa em que somos criadas. Poder, qualquer uma pode, basta querer, experimentar e decidir se funciona pra ela ou não”.

Para Camila, assumir os cabelos brancos não deve ser feito simplesmente porque está na moda. Ao contrário, deve ser sinônimo de liberdade de escolha.

“A liberdade está justamente no fato de que eu posso acordar, querer ficar ruiva e tudo bem. Não é porque assumi meus cabelos brancos que vou ficar presa dentro desta nova regra”.

A dica que ela dá para as mulheres que pensam em fazer a transição é fazer aquilo que quiserem:

“Experimente e faça aquilo que faz você se sentir bem. Você tem que estar bem com você mesmo e não com aquilo que o outro acha ou pensa. Se você não gostar, tudo bem. E se você gostar, tudo bem também. Não faz sentido você se libertar de uma regra pra ficar presa em outra”.

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