Como mudar hábitos em qualquer fase da vida

Publicado em 13 de outubro de 2020
Como mudar hábitos em qualquer fase da vida

Mudar hábitos quase sempre está naquela listinha de fim de ano, onde colocamos o que queremos fazer no ano seguinte. Aí o ano novo começa, a gente se anima, coloca o novo hábito em prática e, com o tempo desiste e ele volta pra listinha. Então, afinal, como é possível mudar hábitos de forma definitiva? Será que a nossa idade influencia nisso? E a força de vontade? Faz sentido aquela ideia de que quanto mais velho mais difícil mudar um hábito?

Para falar sobre mudança de hábito é preciso primeiro entender o que é um hábito. Na definição do médico Luiz Carlos Júnior, que é psiquiatra, professor da Universidade Federal de Uberlândia e co-fundador do MevBrasil, onde trabalha com a abordagem de Medicina do Estilo de Vida, os hábitos são uma estratégia que o nosso cérebro usa para economizar energia. É um comportamento que resolve um problema e traz uma recompensa.

“Se tivéssemos que decidir voluntariamente tudo que fazemos, seria exaustivo do ponto de vista de consumo de energia. Por isso criamos automatismos, formas de ter uma solução pronta diante de um determinado gatilho. Então a gente já sabe o que precisa fazer quando precisa comer, beber água, atravessar a rua, acender a luz. O gatilho dá origem a uma resposta que já aprendemos. Essa resposta é o hábito”.

A tal da força de vontade

Conforme o tempo passa, mais automatismos entram no nosso acervo pessoal. Alguns são bons, outros ruins. E sempre que queremos mudar, esbarramos em dificuldades, em preguiça, em vontade de desistir. Isso acontece justamente porque mudar um hábito exige gasto de energia e o nosso cérebro é programado pra economizar energia. Então, ele vai resistir.

Aí vem a tal da força de vontade. Aponta-se muito o dedo para o outro dizendo que ele não tem força de vontade ou nos culpamos por não termos força de vontade.

Para o médico Luiz Carlos Junior, essa é uma força muito fraca e as pessoas não deviam dar tanta atenção a ela.

“A força de vontade é a nossa capacidade de resistir ao estímulo externo e responder automaticamente. Só que ela é como se fosse uma bateria, que vai perdendo a força o longo dia. Os estudos mostram que quando você está cansado ou estressado, você tem menos capacidade de exercer essa força de vontade. Por isso é difícil resistir à lasanha congelada na geladeira quando se chega em casa tarde e cansado”.

O que mais funciona como estímulo para mudar hábitos, então, não é a força de vontade, mas a sensação de autoeficácia, ou seja, precisamos perceber que somos capazes. Por isso é importante começar com hábitos mais simples e avançar degrau por degrau. “Você precisa ter a consciência de todo o prejuízo que aquele hábito traz e quais ganhos você vai ter ao mudar para um outro hábito. Isso cria motivação e te sustenta quando você já perdeu a força de vontade”.

Existe idade pra mudar hábitos?

A essa altura talvez você já tenha se conscientizado de algum hábito que quer mudar, mas pode estar pensando que é velha demais pra isso, que já está acostumada, que somente é possível mudar hábitos no auge da juventude.

Bom, não é bem assim. O hábito não é algo que nasce com a gente, mas que aprendemos ao longo da vida. Até por isso conseguimos aprender novos hábitos. E isso pode acontecer em qualquer idade, em qualquer fase da vida.

Porém, de fato, quanto mais envelhecemos mais complexo pode ser tornar a mudança de hábito. Para o médico, dois pontos contribuem para isso: a pessoa já enfrentou mais desafios, então tem um conjunto maior de ferramentas automáticas; e o fato de que isso já se tornou tão automático que ela não tem consciência de que é um hábito.

“A gente não consegue desaprender um hábito, mas consegue estabelecer outro hábito se essa solução for mais eficaz e for repetida. Então, você pode sobrepor um hábito a outro. Essa é uma capacidade que você conserva a vida inteira, porque está ligada à plasticidade cerebral. O cérebro se modifica com cada aprendizado, não importa a época da vida”.

O que fazer para mudar hábitos

A mudança de hábito não é um processo mágico. Na verdade é uma escolha e quanto mais consciente ela for, mais eficiente será a mudança. Mudar hábitos tem a ver com autoconhecimento e persistência.

A treinadora do corpo e da mente e mentora de saúde integral Juliana Romantini, ensina a começar sempre por hábitos menores e mais fáceis, o que hoje em dia vem sendo chamado de mini-hábitos.

“Sempre comece por hábitos fáceis para que seja possível entender o processo neural e de incorporação de um hábito. Aos poucos, você vai aumentando e se colocando desafios maiores. Isso é autoconhecimento”.

Ela, que desenvolveu uma metodologia para ajudar as pessoas a mudar o estilo de vida, a Prática Integral, dá algumas dicas práticas para que você comece agora mesmo a sua mudança de hábitos:

1. Sinta qual hábito você quer mudar

“A mudança de hábito precisa ter um propósito real pra ela. Ela tem que entender porque quer fazer aquilo colocar um sentido na mudança. Não pode ser algo que alguém diz que ela tem que fazer. A vontade e a intenção são fundamentais”.

2. Repita e coloque ritmo

“Para mudar um hábito é preciso repetir o novo estímulo sequencialmente por um bom tempo. Acredita-se que acima de 21 dias já acontece uma mudança. Mas quanto mais tempo você repetir esse hábito, mais forte ele vai ser e mais vontade você vai ter de fazê-lo. Gosto de fazer uma analogia com uma mata fechada pela qual você quer passar e precisar abrir caminho. Nos primeiros dias você vai com o facão cortando o mato e nem sempre é gostoso. Mas, com o tempo, uma trilha se abre e o caminho fica mais fácil. E você precisa fazer esse trabalho todo dia, se não o mato cresce de novo e volta a ficar mais dificil”.

3. Prepare um ambiente que te ajude

“Você pode se ajudar na hora de mudar hábitos, já que esse não é um processo fácil. A dica é deixar pistas para o cérebro, as chamadas deixas. Então, se você quer caminhar no dia seguinte, deixe um tênis e uma roupa prontos; se você quer tomar água todo dia pela manhã, deixe a jarrinha pronta; se a ideia é passar fio dental depois do almoço, deixe fio dental em lugares que você vai ver. Ou seja, você prepara o ambiente e se programa para aquele hábito. A ideia é que isso facilite o seu processo”.

4. Celebre

“Conforme for avançando na mudança de hábitos, não hesite em celebrar e comemorar que o processo está dando certo. Isso gera estímulo positivo e motivação. Quando um hábito é incorporado e você começa a transformar a sua vida no caminho que você quiser porque é porque você já entendeu como o seu cérebro funciona e tem mais recursos para testar outras coisas”.

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