Propósito: será que existe idade para ter um?

Publicado em 23 de setembro de 2020
Propósito: será que existe idade para ter um?

Para ter uma vida plena e completa é preciso encontrar um sentido para ela: o propósito, que tem a ver com a saúde e a longevidade. E, sim, ele pode ser cultivado ao longo de toda a vida, inclusive na maturidade.

Propósito é uma palavra que vira e mexe aparece por aí, principalmente nas reflexões sobre longevidade. E isso é ótimo porque o propósito está por trás de uma vida plena e completa.

Para a terapeuta ocupacional e empreendedora social especialista em longevidade Cecília Xavier, ter um propósito é saber o que dá sentido à sua vida. Profundo, né?

O Ikigai

No livro Ikigai, os autores Héctor García e Francesc Miralles fazem uma investigação sobre a longevidade na ilha de Okinawa, no Japão. A ilha possui o maior índice de centenários do mundo e é uma das Blue Zones, lugares onde as pessoas vivem por muito tempo com saúde e sem remédios.

Dentre muitas coisas, eles descobriram que o ikigai explica muito dessa longevidade. Mas o que é o Ikigai, afinal? “De acordo com os nativos e Okinawa, Ikigai é a razão pela qual eles se levantam pela manhã”, ou seja, é um propósito.

Mesmo aquelas pessoas que já passaram dos 90, e até dos 100 anos, mantém essa chama acesa. E isso é fundamental para a qualidade de vida delas e uma prova de que não existe idade para ter um propósito. Pelo contrário: o propósito pode ser um gatilho pra manter a saúde e a vitalidade ao longo da vida.

Porém, a sociedade em que vivemos ainda associa o propósito e as realizações à juventude e coloca os maduros em uma posição de simplesmente sentar e esperar, sem espaço para a criação.

E como resultado, os próprios maduros acabam fazendo a associação de que a idade é um empecilho para as realizações. Mas não é. “Isso é uma mentalidade, não um fato”, reitera Cecília, que completa dizendo: “Esse preconceito cria uma força contrária aos projetos, ao propósito, às ações e a empreendimentos”.

O aprendizado de vida longa e o lapidar do propósito

Chip Conley, empreendedor, ex-diretor de hospitalidade e mentor do Airbnb fundou em 2017 a Modern Elder Academy, uma escola criada especialmente para pessoas acima de 50 anos se prepararem para a segunda metade das suas vidas.

Ele conta, em entrevista exclusiva ao FDC Longevidade, ter descoberto que o aprendizado de vida longa – ou lifelong learnig, em inglês – ajuda as pessoas a mudarem suas mentalidades quanto ao envelhecimento, o que, segundo provou a professora de Yale, Becca Levy, pode acrescentar sete anos e meio à vida: anos felizes e produtivos gozando dos prazeres inesperados do envelhecimento.

“A aprendizagem em vida longa não diz respeito a certificados e kits de ferramentas. Trata-se de se mudar a mentalidade sobre envelhecimento, de forma que se possa viver uma vida tão profunda quanto longa”, diz.

Como manter o propósito e a vontade de aprender com 60, 70, 80 anos?

Em primeiro lugar, não é preciso ter o mesmo propósito que se tinha aos 20 anos. Na verdade, o viver pode ser um grande lapidar desse propósito. “É um processo contínuo de amadurecimento da compreensão do que se quer. Às vezes existe um grande propósito que se abre em outros menores. Ter um propósito é saber o que dá sentido à vida”, diz Cecília.

E esse sentido pode ganhar novos tons ao longo do tempo. O segredo é o autoconhecimento. E como dizem os autores do livro Ikigai, “o vazio existencial é típico das sociedades modernas, em que o homem faz aquilo que os outros fazem ou o que lhe dizem para fazer, em vez do que gostariam”.

Autoconhecimento na busca por propósito

Por isso, para descobrir o propósito, seja qual for a fase da vida, é preciso se perguntar: o que eu quero? O que eu gosto?

“É importante trabalhar a si mesmo, refletir sobre sua própria vida e ir retirando as camadas de crenças que foram incutidas na gente ao longo do tempo. Se a pessoa consegue perceber que a barreira não está nela de fato, ela descobre que pode fazer um curso superior, criar um novo projeto, dançar, viajar, mudar de carreira”, explica Cecília

Muitas vezes, o que as mulheres maduras querem são coisas muito mais simples do que se pensa, diz Cecília, mas aquilo está escondido e é preciso um grande trabalho para descobrir. “Não são coisas grandiosas e mirabolantes. São coisas como encontrar mais com as amigas, ter mais autonomia, viajar fora de época, ou seja, coisas realizáveis”.

Mas as crenças limitantes são tão fortes que até o simples fica difícil de realizar.

Como é possível se autoconhecer e descobrir o seu propósito (independentemente da idade):

Faça pausas para reflexão

Refletir sobre a própria vida é uma forma de se auto descobrir. Por isso, faça pausas e perguntas a si mesmo. Se estamos vivendo mais, precisamos parar mais vezes, já que as fases da vida se estendem e se complementam.

Chip Conley diz: “Acrescentar alguns rituais de celebração e revelação pode nos dar exatamente o tipo de pontuação que a gente precisa para experimentarmos nossa humanidade nesta nova história mais longa”.

Aumente o tempo em atividades que levam a um estado de fluir

Um dos ensinamentos Ikigai é que não existe fórmula mágica para alcançar a felicidade e viver o seu propósito. Mas, uma das formas de fazer isso é conseguir entrar em um estado de fluir e, por meio dele, chegar a uma experiência ótima.

“Para isso, devemos nos concentrar em aumentar o tempo que passamos realizando atividades que nos fazem entrar no estado de fluir, em vez de nos deixarmos levar por atividades que trazem prazer imediato, como comer em excesso, abusar de drogas e álcool etc”, dizem os autores.

Não deixe a idade determinar as limitações

“É preciso parar de achar que porque você fez 60, 70 ou 80 anos pega mal fazer isso ou aquilo. Olhe pra você e descubra quais são as suas possibilidades, os seus potenciais e as suas limitações pra poder sentir se o seu desejo, o seu projeto e o seu propósito cabem na sua realidade”, ensina Cecília.

Para isso, é preciso investir em autoconhecimento. É ele que faz a diferença entre alguém que sabe o que quer da vida de maneira apaixonada e quem não sabe.

Descubra o que você quer

Faça uma autoanálise profunda para localizar aquilo que você deseja. Pergunte-se qual a vida ideal pra você, quantas horas por semana você quer trabalhar, qual renda quer receber, onde você quer morar.

“Quanto mais a própria pessoa conseguir fazer essa análise dela, ter essa percepção sutil do que ela sente a respeito daquilo que faz, mais ela consegue localizar onde está o propósito. E quando fazemos algo que está no nosso propósito, nosso coração bate mais forte, a voz muda de tom e o olho brilha”.

Por fim: o que tem feito o seu coração bater mais forte e o seu olho brilhar?

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