Como lidar com a Síndrome do Ninho Vazio?

Publicado em 26 de setembro de 2020
Como lidar com a Síndrome do Ninho Vazio?

A Síndrome do Ninho Vazio pode ser uma grande oportunidade para redescobrir prazeres da vida e encontrar um jeito mais leve e gostoso de viver

Os filhos saem de casa para fazer a própria vida, mas sempre deixam pra trás roupas, livros, fotos, além do espaço que ocupavam na casa dos pais. Nessa hora, o que fazer? Será que o melhor é encaixotar tudo e guardar, pedir para que eles levem embora, doar ou deixar ali, como forma de lembrança?

Cada pessoa lida de uma forma com esse momento chamado de Síndrome do Ninho Vazio. E, sempre, as particularidades devem ser respeitadas. Mas é muito importante encarar de frente a situação e entender que, a partir do momento em que o filho sai de casa, uma nova fase começa.

Para a consultora em saúde mental Cinthia Alves Prais, o ideal é não deixar o quarto montado, as fotos da infância e os objetos pessoais à mostra. É preciso ressignificar o ambiente.

“A melancolia é a presença da ausência. É importante ter um quadro ou outro em que o filho apareça aos seis anos, mas a casa não pode mais ser a mesma de quando ele saiu porque as necessidades de quem vive ali mudou. Então, é hora de preencher, trazer vida, movimento”.

O fim de um ciclo

A juíza Cláudia Arruga, 52, levou dois anos para transformar em seu escritório o quarto da filha, que se casou e foi fazer residência médica nos Estados Unidos em 2018. A decisão aconteceu durante a pandemia, resultou em 9 caixas com pertences pessoais e significou a coragem de lidar com uma emoção que estava guardada. “Eu tinha medo porque era a concretização de que ela não ia mais voltar”.

Cláudia enxerga que precisou passar pelas diversas fases do luto até decidir tomar posse daquele espaço, e que este foi o momento de aceitar que tinha uma filha adulta, com vida própria. Esse movimento nem sempre é fácil, mas é muito necessário.

“A gente só transforma aquilo que aceita. É preciso aceitar a realidade como ela é e interagir com ela, sentir o dissabor, o ciclo e, a partir disso, buscar algo pra aliviar o que incomoda”, diz Cinthia.

Como transformar o ninho e a culpa

Mudar a casa, transformar o quarto do filho em um escritório, uma sala de TV, um espaço de meditação ou uma biblioteca é uma forma de atualizar o ambiente e trazer vida nova ao lugar.

Mas para lidar com a Síndrome do Ninho Vazio, não basta mexer nos ambientes físicos. É preciso trabalhar-se internamente e aceitar que existe um novo ciclo de vida à frente.

“É importante pensar na maternidade como uma fase, não como a história de toda uma vida. A maternidade vai fazer parte da nossa vida de maneiras diferentes ao longo do tempo. Negar o momento dos filhos saírem de casa é também negar a própria fase que se está vivendo. E quando a gente nega, não vê o que ela tem de produtivo e feliz”, diz Cinthia.

Um novo projeto

Uma das formas que Cláudia encontrou de lidar com a síndrome foi criar o perfil Cool50s no Instagram apenas um mês depois que a filha se mudou. Embora tivesse uma profissão estabelecida, marido, um filho de 16 anos (hoje com 18) e uma vida social independente dos filhos, ela sentiu o baque e percebeu que poderia entrar em um estado de depressão.

“Minha filha nasceu quando eu tinha 21 anos e sempre fomos muito companheiras uma da outra. Temos o mesmo gosto de livros, música, filmes e nunca tivemos um gap de geração. Quando ela foi embora, foi difícil digerir isso e, aí, criei o perfil no Instagram como se fosse um diário para compartilhar o que eu estava passando e ainda não estava entendendo. Eu precisava, na verdade, dar um sentido pra tudo aquilo”.

E funcionou. Embora ela tenha levado dois anos para desmontar o quarto da filha, fazer o Cool ajudou a tirar o foco da saudade e desafogar um pouco o marido e o filho. “Ela saiu em julho e em agosto comecei escrever no Cool. Quando coloquei o foco nisso, acho que a vida de todos ao meu redor ficou muito melhor. Minha filha diz que eu descobri quem eu era de verdade”.

O prazer de se descobrir sem os filhos (e sem culpa) no ninho vazio

Esse movimento de descobrir novos prazeres e novas atividades é fundamental para lidar com a Síndrome do Ninho Vazio porque, sim, é uma nova fase que se inicia. “Essa fase significa o crescimento deles, mas também dos pais. É quando se inicia a aventura de criar uma nova vida depois de ter cumprido a missão de construir o ninho para receber os passarinhos. Um momento muito bom poder retomar sonhos, fazer viagens, voltar a sentir prazer naquilo que a vida tem hoje.”

O fim de um ciclo é uma oportunidade de refazer hábitos, descobrir novos prazeres, redescobrir prazeres que ficaram perdidos, encontrar novos sentidos para a aventura da vida. E isso exige uma dose de atenção.

Na maior parte do tempo, vivemos a vida no piloto automático, sem nos perguntar se aquilo que servimos à mesa, ou a roupa que está no guarda-roupa ainda corresponde às nossas preferências atuais. Fazemos isso com coisas simples, mas também com as mais complexas.

Quando a ruptura acontece, vêm a dúvida: Como é buscar novos interesses? Como é aquecer novamente o relacionamento a dois? Como é construir um diálogo sobre a rotina, sobre as coisas do mundo e não só sobre a educação dos filhos?

Formas diferentes de lidar com o ninho vazio

Cada um terá um jeito de criar novos significados. Para Cláudia, foi criar uma página no Instagram. Para outros, pode ser viajar mais, estudar, fazer um curso, iniciar um empreendimento novo, voltar a dançar, fazer mais festas. Enfim, o caminho é sempre único.

Mas, para isso, é preciso se conhecer, aceitar o processo, respirar fundo e entender que os filhos precisam ir, alçar seus voos e deixar o ninho. Mas as raízes, se foram bem criadas, estarão sempre ali para recebê-los de volta, mesmo que com a casa (e a vida) transformados.

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